Como diria minha vó: “é bom esfregar os olhos e enxergar de novo as coisas, só pra enxergá-las melhor” e já que estava nesse momento de redescoberta da minha vizinhança fui a escadaria. Para chegar na minha casa há dois jeitos: Você pode subir a rua que tem um formato de caracol, provavelmente ela é assim pra facilitar a subida dos carros, se fosse em linha reta acho que ficaria muito íngreme, minha casa fica muito lá em cima, da para ver o Cristo, a Igreja da Penha e até o Aeroporto, dai ninguém que mora no topo, inclusive eu, sobre pela rua. O segundo jeito é seguir até a metade da rua e depois ir pela escadaria que tem só 186 degraus, é, eu contei. Quem não contaria? Quantas vezes eu subi por ela, as vezes até 4 vezes por dia, comprar o pão de manhã ( não da para tomar café sem pão não é?), escola, curso e buscar a chave de casa com minha irmã que desceu e esqueceu de me dar. Enfim, tive muitas oportunidades de contar (e recontar) os degraus que ela tem.
Voltando a escadaria, me encontrei lá sozinho, sentado com 12 anos. Aquilo não me surpreendeu, eu sempre sentava no segundo degrau, encostava as costas no ferro do corrimão e pensava, pensava por algum tempo, não sei bem por quanto tempo, acho que dessa ultima vez eu fiquei bastante tempo.
Sentei do meu lado.
Nunca fui de falar muito, então tive que puxa assunto:
Ontem eu comprei um livro de filosofia publicado na argentina em 1943, é o livro mais antigo que tenho, o nome é “Matéria y Memória” do Bergson. Como não foi publicado em português comprei esse mesmo.
Ele (ou eu) me olhou, ficou em duvida, mas eu já sabia que ele me responderia — Legal. Posso ver?
— Aqui. Ele olhou, começou pela capa e as costas, mas como não dizia nada e nem tinha figura alguma foi para a primeira folha. Sabia que gostaria das folhas amareladas! Folheou algumas e parou numa pagina, leu dois parágrafos e me devolveu.
— Ham... Eu queria ler quadrinhos, mas meu pai nunca quis comprar.
Nessa hora eu pensei em me dizer varias coisas, qual foi o nosso primeiro livro, como nós aprendemos a ler, ler de verdade sabe, com paixão, qual é nosso gênero preferido, o que nós seriamos quando crescer...
Não disse nada, eu sei que poderia causar algum lapso ou distorção temporal, vi isso em vários filmes (De Volta para o Futuro é um deles). Porque a pressa? Eu vou passar por isso tudo mesmo.
Ontem eu comprei um livro de filosofia publicado na argentina em 1943, é o livro mais antigo que tenho, o nome é “Matéria y Memória” do Bergson. Como não foi publicado em português comprei esse mesmo.
Ele (ou eu) me olhou, ficou em duvida, mas eu já sabia que ele me responderia — Legal. Posso ver?
— Aqui. Ele olhou, começou pela capa e as costas, mas como não dizia nada e nem tinha figura alguma foi para a primeira folha. Sabia que gostaria das folhas amareladas! Folheou algumas e parou numa pagina, leu dois parágrafos e me devolveu.
— Ham... Eu queria ler quadrinhos, mas meu pai nunca quis comprar.
Nessa hora eu pensei em me dizer varias coisas, qual foi o nosso primeiro livro, como nós aprendemos a ler, ler de verdade sabe, com paixão, qual é nosso gênero preferido, o que nós seriamos quando crescer...
Não disse nada, eu sei que poderia causar algum lapso ou distorção temporal, vi isso em vários filmes (De Volta para o Futuro é um deles). Porque a pressa? Eu vou passar por isso tudo mesmo.